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por Rede Brasil Atual

Foto: DIVULGAÇÃO/PEQUI FILMES

Início de abril de 1964. O presidente constitucional, João Goulart, já foi derrubado e substituído pelo marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. Na Casa Branca, um assessor (McGeorge Bundy) fala com o presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, sobre o tom da mensagem de apoio ao recém-instalado governo brasileiro. O assessor lembra que o embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, prefere um texto amistoso, mas sugere um tom mais cauteloso, porque os novos donos do poder já estavam prendendo civis.

“Acho que algumas pessoas precisam ir para a cadeia. Aqui nos Estados Unidos e no Brasil também. Não estou numa cruzada contra eles, mas gostaria que muitas pessoas tivessem sido presas, antes de perder Cuba”, responde o presidente. O assessor insiste em uma mensagem padrão. “Prefiro enviar uma mensagem bem calorosa”, diz Johnson, fechando a questão.

O diálogo acima, documentado em áudio, é um trecho significativo do filme O Dia que durou 21 Anos, de Camilo Tavares, lançado no ano passado e agora disponível em DVD e blu-ray. A obra traz documentos e áudios e expõe com clareza um assunto que durante muito tempo foi negado, omitido ou pouco falado na historiografia sobre o golpe que está completando 50 anos: a participação norte-americana no movimento que depôs Jango, sob o pretexto básico de influência comunista no Brasil.

Assessor do embaixador, Robert Bentley, um dos entrevistados no filme, estava no gabinete presidencial quando o presidente do Congresso, Auro de Moura Andrade, declarou vaga a Presidência da República – mesmo com João Goulart ainda em solo brasileiro. Lyndon Johnson quer saber se a operação foi feita legalmente, e Bentley recorda ter dito: “Parece que foi legal”.

Não foi. Jango ainda era presidente. A ilegalidade foi observada pelo próprio Lincoln Gordon, em livro publicado no Brasil em 2002: “Embora sem a sanção constitucional apropriada, o presidente do Senado declarou vaga a Presidência e acompanhou o sucessor constitucional – Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados – a uma cerimônia improvisada no prédio do Supremo Tribunal Federal, onde Mazzilli foi empossado como presidente em exercício”. Em 15 de abril, assume o primeiro dos presidentes militares do período 1964-1985, Castelo Branco.

Surpresa

Em seu A Segunda Chance do Brasil – A Caminho do Primeiro Mundo, o embaixador também admite surpresa pelo que viria logo depois: “Naquele momento ninguém podia prever o que aconteceria, embora ninguém imaginasse que o governo militar duraria 21 anos”. Ele dizia acreditar que a “ordem constitucional civil” fosse restaurada já em 1965, com a eleição de um novo presidente, “provavelmente Juscelino Kubitschek”. Isso aconteceria apenas em 1985, com uma eleição presidencial ainda indireta. E em 18 de dezembro do ano passado, o Congresso “devolveu”, simbolicamente, o mandato a João Goulart. Com a presença de Dilma Rousseff, de chefes das Forças Armadas e de João Vicente­, filho de Jango, o Parlamento anulou a sessão de 2 de abril de 1964, que declarou a vacância do cargo.

A preocupação norte-americana com os rumos do Brasil não surgiu de uma hora para outra. Outra gravação incluída no filme mostra um diálogo, em abril de 1962, entre o presidente John Kennedy (assassinado no ano seguinte) e Gordon. “Podemos fazer algo contra Goulart?”, pergunta o presidente. “Sim, acho que podemos”, responde o embaixador.

“Os Estados Unidos, depois da Revolução Cubana, voltaram suas atenções para a América Latina, com a decisão de impedir a qualquer custo o que eles chamavam de segunda Cuba”, diz o pesquisador Carlos Fico, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos entrevistados para o filme de Tavares. As ações norte-americanas incluíam financiamento de campanhas para as eleições de 1962 e “um serviço de informações muito antenado em relação ao que acontecia aqui”.

Segundo ele, Lincoln Gordon tornou-se personagem de nossa história política, ao convencer o governo norte-americano de que haveria um “risco comunista” no Brasil. Um risco improvável. “Que havia apoio da esquerda (a Jango), inclusive dos comunistas, é fato. Agora, que Goulart pretendia dar um golpe não há nenhuma evidência empírica. Foi uma iniciativa pautada pelo equívoco.” Estudioso de assuntos brasileiros, Gordon foi embaixador de 1961 a 1966. Morreu em 2009, aos 96 anos.

Em relato ao Departamento de Estado, Gordon também cita o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola: “Minha conclusão é que as recentes ações de Goulart e Brizola para reforma agrária levarão o Brasil a um governo comunista similar ao de Fidel Castro em Cuba”.

O historiador norte-americano Peter Kornbluh, analista-sênior do National Security Archive, organização não governamental criada em 1985 por jornalistas e estudiosos, observa no filme: “Os Estados Unidos queriam apresentar Goulart como um presidente de extrema-esquerda. A reforma agrária pela qual Goulart realmente lutava era mais um pretexto para apoiar esse argumento”. Ele fala em um “plano de contingência” prevendo inclusive ação armada, em caso de resistência – que não houve.

Brother Sam

A ação norte-americana sempre foi contestada pelos militares e pelo próprio Lincoln Gordon, ao escrever em seu livro que “a derrubada de Goulart foi obra dos militares brasileiros, sem assistência ou aconselhamento dos Estados Unidos”. Ele admite a existência da Operação Brother Sam, que consistia no envio de uma frota armada para a costa brasileira em março de 1964. “Nenhum brasileiro, militar ou civil, teve conhecimento dessa força-tarefa naquele momento”, assegura Gordon. Segundo o embaixador, um dos objetivos era “exercer pressão psicológica a favor do grupo que se opunha a Goulart”. Quaisquer que fossem os motivos, não houve necessidade de usar as forças armadas, porque o golpe foi consumado sem maior resistência.

“Ninguém admitiria (a presença dos Estados Unidos), porque seria um crime de traição à pátria. Mas os documentos disponíveis hoje mostram que os militares estavam acompanhando a Operação Brother Sam”, diz Carlos Fico, que aponta o general José Pinheiro de Ulhoa Cintra, homem de confiança de Castelo Branco, como contato brasileiro com os norte-americanos.Fonte:Minas livre-02/14

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